FALA PALHAÇO! Um jeito diferente de abrir portas




Um jeito diferente de abrir portas
Ale Simioni

Dia desses estava lendo uma publicação sobre a história do Teatro do Ornitorrinco. O livro é belíssimo, com textos e fotos das montagens, além de comentários do Diretor teatral José Celso Martinez Corrêa, do crítico teatral Jefferson Del Rios, do palhaço Hugo Possolo, entre outros.

E é sobre esse último que quero falar.

Hugo é o palhaço Tililingo, dramaturgo, diretor dos Parlapatões, Patifes e Paspalhões e do Circo Roda.  Para mim uma referência de artista, palhaço e  produtor cultural. Sempre leio tudo o que encontro dele. O título do texto me chamou a atenção: “O jeito Ornitorrinco de abrir portas”, e dentre tudo que ele escreve, destaco algumas partes:

“Meu passado que me condena. Fui admitido e despedido do Ornitorrinco no mesmo dia. Minha participação relâmpago no grupo teria sido como contraregra e esse fato – que narro ao final – ilustra o impacto que teve na minha geração o teatro intenso, vivo, popular, anárquico, iconoclasta e viceral que não caberia em um único adjetivo, uma vez que é tão substantivo (...)

(...) É desse movimento todo que me sinto parte, apesar de ter sido despedido do grupo no meu primeiro dia de trabalho. Foi assim:

Logo na primeira temporada do Ubu, tornei-me mais que fã, talvez groupie, de um tipo de teatro que ia contra as regras formais que eu tanto buscava e não sabia como fazer.

Um dia, precisavam de um contraregra e imediatamente me candidatei (...) Animado em ingressar no grupo fiquei nos bastidores acompanhando uma sessão para entender as tarefas que deveria realizar. Após a peça, quando eu estava acertando os detalhes, obrigações e o cachê com o Cacá, veio o Chiquinho Brandão e melou tudo. Ele gritava com o Cacá que eu não deveria e não poderia ser contratado. Fiquei puto da vida, mas silencioso, na esperança de reverter a situação. Eu queria estar junto, aprender com eles e ainda ganhar “algum”, que pra mim, na época, era muito. Não teve jeito. Chiquinho bateu o pé e o Cacá, elegantemente, me despediu.

Meia hora depois, fora do teatro, fui tirar satisfações com o Chiquinho, que doce e rápido feito o Bamba Leão, me explicou com aquela voz vinda do âmago do seu nariz:

- Ora, rapaz, você já é um palhaço! Um excelente palhaço. Não podemos te desviar!... Se você trabalha aqui como contraregra não terá tempo de se dedicar ao que realmente gosta e quer fazer! Vá! Vá ser palhaço!... Tililingo, você tem que fazer o que realmente quer fazer!

Não vou dizer que foi uma boa lição, já que minha raiva me deixou burro o suficiente para só compreender tudo bem mais tarde. Porém, como creio mais nas ironias que no destino, devo confessar como é boa a emoção de poder contar essa história, bela metáfora do que uma geração de artistas pode dizer à outra. E, também, nunca imaginei que contaria essa história em um livro que celebra a força de um teatro que, ao me despedir, me abriu as portas do teatro.”

A primeira coisa que fiz foi ler esse texto para meus parceiros Lambreta (Gerson Bernardes) e Ritalino (Tiago Marques), porque a gente sempre compartilha as mesmas alegrias e as mesmas angústias de ser artista.

O texto é muito mais extenso, mas esse trecho fez todo sentido para mim, que já trabalhei como garçom, vendedor de assinatura de jornal, recreador, operador de computador, cozinheiro, office boy e mais uma infinidade de funções, até me dar conta que é como palhaço, diretor e gestor cultural que tenho tesão no que faço.

Todas as funções que trabalhei serviram com certeza para formar o artista que sou hoje, mas o que esse texto me fez pensar é que tem uma hora que a gente precisa escolher.

De vez em quando, a gente tira a sorte grande (mesmo que na hora pareça um puta azar),  e o universo escolhe pra gente. 

Agora, trocando de lado e pensando na difícil atitude do Chiquinho Brandão, penso que às vezes a gente tem que ser ruim, pra fazer algo de bom. 


  • O livro “Teatro do Ornitorrinco | imprensa oficial” com 515 páginas de muitas fotos e histórias, pode ser encontrado no Banco de Textos Sesc Londrina

  • Para saber mais sobre Hugo Possolo e os Parlapatões CLIQUE AQUI


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