FALA PALHAÇO! 1º Dia de Pesquisa: primeiro dia de encontro

Toda terça, uma coluna onde Gerson Bernardes e Alexandre Simioni escrevem sobre diversos assuntos, sempre sob a ótica do palhaço.

Lambreta e Mereceu em ilustração de Carlos Nascimento (Nasci)


1º Dia de Pesquisa: primeiro dia de encontro

Gerson Bernardes

Contemplados com o Prêmio Carequinha de Estímulo ao Circo - 2011, começamos, Alexandre e eu, Mereceu e Lambreta, a pesquisa que norteará a montagem que estrearemos no segundo semestre. Segue meu relato do primeiro dia de pesquisa, o que agora prefiro chamar de primeiro dia de encontro.

1º Dia de pesquisa

06/03/2012 – Início: 06h:45 – Praça Floriano Peixoto (Praça da Bandeira), centro de Londrina

Após reunião na Companhia Municipal de Transporte e Urbanismo – CMTU, onde estiveram presentes o Diretor de Operações Luciano Borrozolino e Anísio, funcionário da empresa responsável pela varrição em Londrina, comparecemos ao primeiro encontro com os funcionários de limpeza e varrição de Londrina, os garis, no horário acima.

Fui dormir um dia antes com a cabeça a mil, pensando em diversas contingências e tentando pensar em tudo, o que, óbvio, seria impossível.

Pensei primeiro na roupa. Achei que tinha que pensar na roupa que eu levaria. Que tipo de vestimenta? Mais formal, menos formal, nada formal? No final de contas, fui normal, achei que assim seria mais sincero, e já lá, percebi que isso não importava.

O segundo desafio foi o horário, pois para estar na praça no horário combinado acordei às cinco da manhã, e isso para um palhaço não é lá muito normal. Pensei no sono, pensei nas limitações de horário que uma atividade começar tão cedo implica. Depois pensei que todas as atividades na verdade implicam em uma limitação de horário, e adequação. Compensa talvez dizer que o dia é muito bonito nesse horário, onde parte da cidade ainda dorme e o sol já acorda.

Fui caminhando, achei que seria bom assim, até a praça. Parei para comer em uma padaria no caminho. Um morador de rua entrou na padaria, e, não seria de se espantar, foi o único ali presente a presentear todos com um sincero bom dia. Um bom dia um pouco ébrio, mas era sincero. Logo depois me afirmou que o padre da catedral ainda não tinha acordado, e que ele já devia estar acordado pra tocar o sino.

Chegando à praça, a primeira “cena” cotidiana que vi, foi o acordo entre uma gari e os moradores de rua que dormiam à porta do banheiro da praça. Ela os acorda para poderem pegar seus materiais, e como num acordo, eles levantam e vão embora, ninguém se importa de ter sido acordado, tampouco ela se importa em acordar, afinal é habitual que o dia dela comece nesse horário.

Depois de encontrarmos com o Carlos, encarregado do setor de varrição, fomos acompanhar um grupo de três mulheres garis, e aqui cabe a primeira observação registrada pelo Alê em vídeo. A Roupa, o uniforme, por si só, já é um fator que as torna invisíveis, e vai além, é um fator que as torna assexuadas. Aqui até cabe observar que o próprio corretor do Word encasqueta comigo quando escrevo “uma gari”, como se não houvesse gari mulher.

Antes de encontrarmos com o Carlos, cabe uma segunda observação: todos os funcionários nos cumprimentaram com pelo menos um “bom dia” enquanto passavam pela gente. Acredito que sabiam que não estávamos ali à toa, mas ainda não sabiam o porquê de estarmos.

Logo no encontro com elas, o primeiro e grande tapa na cara da manhã. O Alê se aproximou, nos apresentou, “este é o Gerson eu sou Alexandre”, e perguntou se poderíamos acompanhá-las. Prontamente uma delas aceitou, quando íamos nos posicionar ela emendou e disse “e eu sou a 'Maria' essa é a 'Neide'”. Nós, que estávamos ali justamente para conhecê-las, não perguntamos os seus nomes.

Por fim, continuamos a acompanhá-las. Não sei se por causa da câmera ou se é sempre assim, elas pareciam bem animadas. A terceira delas, até aqui sem nome, a "Vilma", está grávida, e por isso está na praça, onde a "Maria" e a "Neide" habitualmente trabalham. A "Maria" em determinado momento perguntou se estávamos gravando a conversa delas, respondi que elas poderiam reclamar de seus patrões à vontade. Voltaremos amanhã para conversar com elas no horário de almoço.

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