OLHA ISSO! A indústria cultural

Toda quinta, Gerson Bernardes e Alexandre Simioni escolhem um vídeo e compartilham aqui no triolé, sempre com algum comentário, sob a ótica do palhaço.



Lambreta e Mereceu em foto de Isabela Figueiredo


INDÚSTRIA CULTURAL

Gerson Bernardes


Há tempos, assisti a esse vídeo produzido para um festival de comédia, da banda Axis of Awesome da Austrália. Nele, a banda se questiona porque não tem uma música de sucesso, em tanto tempo de carreira. Um dos integrantes diz que a resolução do "mistério" é simples: a banda não tem nenhum sucesso porque os grandes sucessos do mundo pop são feitos com apenas 04 acordes. E provam: tocam trechos de 40 músicas de sucesso (algumas bem boas se diga de passagem), todas, feitas com os mesmos 04 acordes, algumas variando somente o compasso.




O que o vídeo prova? Basicamente, como prova mesmo, nada. Mas dá questionamentos que devem ser feitos no que tange à produção artísticas. E quando digo produção, quero dizer produção em série. E o que faz com que as coisas sejam produzidas em série, é Indústria.

Num raciocínio simplista a indústria surgiu quando as coisas passaram a ser feitas de uma maneira organizada de tal forma que fosse possível produzi-las em grandes quantidades. A indústria de sapatos produz muito mais sapatos do que um sapateiro sozinho. A indústria de sapatos produz muitos sapatos, porém todos iguais, porque qualquer diferenciação entre eles, ou em parte deles, demandaria um maior tempo na produção. O sapateiro produz um sapato diferente do outro, personalizado de acordo com a escolha do cliente.

REPARE: quando se fala de indústria, fala-se de coisas, coisas sendo produzidas, MERCADORIA. A produção em série proporcionada pelo advento da indústria possibilitou uma produção em larga escala de mercadorias, iguais entre si.

Não é diferente para a Indústria Cultural. Ela produz coisas em série, com um molde pré-estabelecido por ela mesma, produzindo mercadorias iguais entre si e que agradem a maior parte dos consumidores possível. É o que acontece com as 40 músicas do vídeo? Estas músicas fazem parte de um modelo produzido em série?

Dois filósofos alemães do começo do século XX já teciam comentários a esse respeito. Adorno e Horkheimer, na obra "A dialética do esclarecimento", diziam que "liberal, o telefone permitia que os participantes ainda desempenhassem o papel do sujeito. Democrático, o rádio transforma-os a todos igualmente em ouvintes, para entregá-los autoritariamente aos programas, iguais uns aos outros, das diferentes estações. Não se desenvolveu nenhum dispositivo de réplica e as emissões privadas são submetidas ao controle". E continuam, dizendo que "não somente os tipos das canções de sucesso, os astros, as novelas ressurgem ciclicamente como invariantes fixos, mas o conteúdo específico do espetáculo é ele próprio derivado deles e só varia na aparência. Os detalhes tornam-se fungíveis. A breve sequência de intervalos, fácil de memorizar, como mostrou a canção de sucesso; o fracasso temporário do herói, que ele sabe suportar como good sport que é; a boa palmada que a namorada recebe da mão forte do astro; sua rude reserva em face da herdeira mimada são, como todos os detalhes, clichês prontos para serem empregados arbitrariamente aqui e ali e completamente definidos pela finalidade que lhes cabe no esquema".

Coloco abaixo um vídeo produzido em São Paulo, de uma série de vídeos que se propõe a discutir a lei de fomento da cidade. Neste vídeo, alguns artistas e produtores culturais discutem a indústria cultural, suas consequências e uma alternativa a ela.


Se é que há uma alternativa, a quem cabe realizá-la?

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