FALA PALHAÇO! Peixe Grande – para meu pai

Toda terça, uma coluna onde Gerson Bernardes e Alexandre Simioni escrevem sobre diversos assuntos, sempre sob a ótica do palhaço.




Lambreta e Mereceu em ilustração de Carlos Nascimento (Nasci)


Peixe Grande – para meu pai

Ale Simioni


“Ao contar a história de meu pai, é impossível separar a realidade da ficção (...)”


Nasceu em 11 de abril de 1943. E mesmo assim dizia que tinha lutado na Segunda Guerra. Em outra vida, também tinha sido músico de Glenn Miller, um famoso músico do início do século, que em 1944 desapareceu em um acidente de avião, não sendo encontrados destroços ou qualquer sinal dos ocupantes da aeronave. Já voltando um pouco mais no tempo, havia sido morador de Atlântida, uma lendária ilha, cuja primeira menção remonta a Platão. Então imagine que faz tempo pra caramba!


Na época de Cristo, foi centurião. Na Primeira Guerra foi soldado. E assim por diante. Suas histórias eram sempre recheadas de detalhes.


Mas eu gostava mesmo era de ouvir as histórias “dessa vida”, das confusões da sua família de descendência italiana. Do cortiço que morou com a mãe o Pai e a irmã, onde havia um tanque para lavar roupas e todas as famílias por bem ou por mal tinham que compartilhar. Um sabia da vida do outro e davam palpites, e brigavam, e discutiam, e daqui a pouco estavam se abraçando e se beijando.


Gostava de ver fotos e ouvir sobre os passeios para o litoral. A família toda subia na caçamba do caminhão e desciam a serra, para chegar na praia do Guarujá. E levavam bolo confeitado! E claro que a melancia não podia faltar. Sabe como faziam para mantê-la fresquinha? Enterravam na areia da praia e só tiravam na hora da partilha. Nas fotos os maiôs enormes da década de 1950 e a famosa câmara de pneu de caminhão que era levada para ser usada como boia no mar.


Ele sempre dizia, que nessa época sempre via uma garota passeando pela praia da enseada no Guarujá e que desde então já havia se apaixonado por ela; quinze ou vinte anos depois viria a ser sua esposa.


Seu pai durante um tempo foi proprietário de um parque de diversões em São Paulo, naquele tempo o jogo era permitido e o negócio era rentável. Uma das boas histórias dessa época foi quando um tio acabou acertando o próprio pé com uma espingarda de pressão, ao invés do alvo, na barraquinha do tiro, e teve que ser levado para um hospital, causando a maior confusão.


Quando o jogo foi proibido, seu pai foi trabalhar como motorista de praça. Hoje mais conhecido como taxista. Mas naquela época em que o automóvel não era tão acessível, a profissão apesar de desgastante, dava um bom dinheiro a família.


Saiu de São Paulo, aquela terra maluca e foi trabalhar no Guarujá, onde diz que reencontrou aquela menina que andava na praia. E casou com ela! Tiveram cinco filhos e alguns anos depois viajaram como nômades por várias cidades desse país enorme que vivemos. Conheceram o nordeste, o norte, o sul e principalmente o interior de São Paulo. Londrina foi uma das últimas paradas da família reunida. Dalí, estavam todos crescidos, e cada um foi para um “canto”.


Mas se você pensa que suas histórias pararam por aí está engando! O “Peixe Grande” continuou contando histórias, mas algumas a gente não gostava muito. E nos últimos anos, acabamos discutindo e nos afastando por conta de algumas fabulosas histórias.


Há uns dez dias, ele voltou para “casa”. Em uma viagem de carro, por aproximadamente oito horas ouvimos boas histórias e passamos momentos intensos com esse cara que sempre amamos, mesmo nas horas em que nossas ideias e atitudes não combinavam. Durante sete dias vivemos intensamente o que provavelmente não vivi em 42 anos.


Há pouco menos de uma semana, “Peixe Grande” foi chamado para contar suas histórias lá para o pessoal do plano espiritual. Dizem que o clima estava ficando monótono por lá e precisavam alegrar o ambiente com seus causos.


Comecei o texto com uma frase do filme “Peixe Grande e suas histórias maravilhosas” porque desde a primeira vez que o assisti vi ali a figura do meu pai. E nessa última semana intensa, me senti como no filme, iluminando a ponte e o caminho para a passagem desse cara que eu amei muito nesse tempo em que ele esteve aqui.


Pai, que bom que você nos deu a chance de compartilhar esses momentos. Que bom que você esteve aqui. Que bom que temos muitas histórias pra contar.


Que Deus ilumine seu caminho, sempre!


Eu te amo, pai.



· Essa semana o FALA PALHAÇO! está completamente ligado ao OLHA ISSO!, sendo assim, você não precisa esperar até quinta para saber qual o vídeo que vamos compartilhar aqui no Triolé Cultural. Ele já está no ar e você pode conferir agora CLIQUE AQUI

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