FALA PALHAÇO! Até onde vai o conto da carochinha II

Toda terça, uma coluna onde Gerson Bernardes e Alexandre Simioni escrevem sobre diversos assuntos, sempre sob a ótica do palhaço.




Lambreta e Mereceu em ilustração de Carlos Nascimento (Nasci)


Até onde vai o conto da carochinha II

Gerson Bernardes


Excepcionalmente nesta semana, continuo eu Gerson Bernardes a escrever o "FALA PALHAÇO!"

Semana passada escrevi um texto para esta mesma coluna, tentando no mínimo ser discreto. Falar de Londrina e de seus problemas e de seus autores e responsáveis, como se eles não existissem.

No texto de hoje me desfaço da cortina do texto passado, me desfaço da idéia de escrever sobre uma cidade que não existe e sobre seus fatos que não aconteceram. O que aconteceu ontem é algo de muito grave, e que não merece, nem por uso da ironia, levar o status de não ter acontecido, porque infelizmente aconteceu e não foi pouco.

Venho de uma outra cidade que também existe. Cheguei em Londrina em 2005, como muitos para fazer faculdade, e por aqui fiquei. Venho de uma cidade tão quente e de certa forma "grande" como Londrina. Venho de Ribeirão Preto, interior de São Paulo.

Paralelos a parte, lá, em 1980, um teatro, o mais tradicional e bonito da cidade, este construído na década de 30, também foi consumido pelas chamas de um incêndio, naquela ocasião em um dia de exibição de filme.

Foto Teatro Pedro II, Ribeirão Preto, após incêndio de 1980

Somente 16 anos depois, em 1996, o Teatro Pedro II de Ribeirão Preto foi reinaugurado. A
despeito de uma demora injustificada, cabe dizer que em Ribeirão Preto há um Teatro
Municipal, construído desde 1969, capaz, portanto, de dividir com o atual Pedro II as funções de grande teatro da cidade.

Teatro Pedro II, Ribeirão Preto, hoje.


Porque dizer tudo isso?

Primeiramente, porque uma cidade como Londrina, com um Teatro como o Ouro Verde, não pode se dar ao "luxo" de esperar 16 anos para sua reconstrução. Nem se quer se dar ao luxo de questionar a sua reconstrução. Trata-se de um patrimônio histórico do Estado do Paraná, e, portanto, deve ser tratado como tal. O patrimônio histórico deve ser reconstruído.

Além disso, a cidade de Londrina não pode se dar ao luxo de não construir o seu Teatro Municipal. Ou alguém sabe a quantas anda? Ou pior, vão me dizer que precisou um ser totalmente queimado para voltar a se falar em um Teatro Municipal para a cidade de Londrina?

O que para mim é pior: além de ter o seu principal Teatro destruído pelo fogo, EM CERCA DE UMA HORA, como andam os outros espaços culturais da cidade de Londrina?

Ou você não acha que o Zaqueu de Melo não teria condições de pegar fogo também? E rápido, assim como foi com o Ouro Verde? Se não fosse pelo trabalho de um herói que trabalha por lá, como estaria o Zaqueu hoje? E o complexo cultural que ele faz parte junto com a biblioteca municipal?

Ou você acha que o anfiteatro construído no Zerão está sendo bem aproveitado, ou bem usado?

Ou você acha que o espaço no lago, o teatro do lago, também está bem conservado e com programação ativa?

Ou alguém em sã consciência e plenamente capaz acha que a Concha Acústica está cumprindo com sua função enquanto espaço cultural?

E o Teatro da Galeria Vila Rica?

E o Cine Augustus?

E a rua? Enquanto espaço para atividades culturais, como será que está? Pergunte para algum artista de rua sobre as facilidades para se fazer teatro de rua em Londrina...

Faço aqui a minha confissão, e o que mais me dói. Foi preciso um teatro pegar fogo, corrijo-me, foi preciso o teatro pegar fogo, para pensar nisso tudo? Pensar não, não foi preciso, mas para pensar em agir e questionar, foi?

O fogo ficou muito longe de só queimar o teatro. Queimou muito mais...

Só não pode ser esquecido. Isso, especialmente, não pode ser esquecido.

Está na hora de começarmos a fazer a história ao invés de deixar que ela simplesmente seja feita!

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