FALA PALHAÇO! "Tu es responsable de ce que tu as apprivoisé"

Toda terça, uma coluna onde Gerson Bernardes e Alexandre Simioni escrevem sobre diversos assuntos, sempre sob a ótica do palhaço.




Lambreta e Mereceu em ilustração de Carlos Nascimento (Nasci)


Tu es responsable de ce que tu as apprivoisé


Gerson Bernardes


Qual o impacto da arte? Qual a importância da cultura?

Qual a função social da cultura? Existe, enfim, uma função social para cultura? Se existe devemos combater ou, se não, devemos criar?

Tenho plena consciência de que responder estas e outras perguntas talvez seja o trabalho de uma vida inteira. Começaria o trabalho perguntando o que é cultura, e somente para este termo o estudo se daria por anos.

Mas, pretensões a parte, quero falar disso porque presenciei e vivenciei impactos causados por atividades artísticas, pela arte, pela cultura.

Talvez seja um amontoado de coisas que já escrevi ou postei aqui, mas demonstra, ao menos, que o assunto não sossegou ou não está resolvido, e talvez nunca assim estará, o que, de certa forma, acho bom.

Começo falando do filme “Lixo Extraordinário”. É deste filme que saiu o trecho que ilustrou a coluna “Olha isso!” aqui do blog na quinta passada. É bem sabido por todos ou quase todos que se trata de uma produção brasileira e inglesa, que concorreu ao Oscar 2011 de melhor documentário e conta a incursão que um artista plástico brasileiro residente nos Estados Unidos, Vik Muniz, fez no Jardim Gramacho, Rio de Janeiro, local onde se encontra o maior aterro sanitário do mundo. Lá, Vik Muniz, em parceria com os catadores de material reciclável do Jardim Gramacho, produziu obras de arte que foram leiloadas na Europa, levantando um dinheiro que voltou para a comunidade do Jardim Gramacho.

O dinheiro por si só seria capaz de produzir grandes mudanças no local. Onde se falta dinheiro, quando vem um monte dele, há grandes mudanças, inegável. Mas foi essa a maior mudança? Alguém consegue mensurar o tamanho da mudança que ocorreu com os trabalhadores do local que trabalharam com Vik Muniz? Lembre-se: os trabalhadores foram parte ativa da produção da obra, e, ainda, foram diretamente retratados por ela. Não vou estragar o documentário contando parte dele, mas tenha certeza que aqueles trabalhadores NUNCA mais serão as mesmas pessoas. Foram impactados.

Tomo a liberdade de transcrever um diálogo que há no filme, entre Vik Muniz e Tião Santos, presidente da Associação de catadores de material reciclável do Jardim Gramacho.

“Vik Muniz: O que que tu pensava de arte moderna até você ir ali na casa de leilão?

Tião Santos: Era um bagulho que eu achava meio escroto...

Vik Muniz: Escroto por quê?

Tião Santos: Ah, tem umas coisas que eu não acho que é arte não...

Vik Muniz: Porque você não acha que é arte, porque tu não entende ou...

Tião Santos: Ah, porque eu não entendo e porque eu acho que não tem significado nenhum!

Vik Muniz: Mas você acha que tem que entender pra ser arte?

Tião Santos: Acho que tem que passar alguma coisa pras pessoas...por exemplo, eu, depois que você me contou a história do Jean-Michel...

Vik Muniz: Jean-Michel Basquiat...

Tião Santos: Isso, eu passei já a gostar da coisa que ele fazia, a entender um pouco mais daquelas coisas meio cavernosas. Eu comecei a entender, daí eu já gostei.

Vik Muniz: Mas se você tá admitindo que você entendeu um pouco mais, conheceu um pouco mais, gostou mais, então é falta de conhecimento que faz a gente não gostar das coisas...

Tião Santos: Isso aí sem dúvida, você pode não gostar de uma coisa porque você nunca experimentou”

Tião Santos, segundo consta no documentário, idealizou e com ajuda de outras pessoas fundou a Associação. Conta também no documentário que já encontrou diversos livros no lixão, um deles O Príncipe, de Maquiavel, com chorume. Colocou o livro atrás da geladeira para secar e o leu.

Mudo o foco e lembro de outro documentário, também postado por mim aqui na coluna “Olha Isso!” O documentário é o Vale dos Poetas, e conta a história de uma pequena cidade no interior do Nordeste, onde de pai para filho, há muitos anos, cultiva-se a tradição de fazer poesia. Todos os habitantes, desde os mais velhos até as crianças, produzem poesia. A poesia ali surge somente do elemento humano, não há política pública de incentivo, não há comércio de poesia. Faz-se poesia lá somente por ser, somente como manifestação do ser.

O terceiro, e último ponto, é um pouco mais pueril, não por isso menos importante. Fui à um aniversário de um pequeno amigo, de codinome Super Tuta.

Este menino de 06 anos a quem tenho a honra de chamar de amigo nos presenteou, a mim e ao Mereceu, com o seu carinho desde que assistiu ao espetáculo “Qual a Graça de Laurinda?”, pela primeira vez em DVD. Convidou-nos de maneira especial para o seu aniversário, e lá pude ter a exata da noção da responsabilidade do nosso trabalho. Não digo só para com as crianças, mas para com todos. Produzimos, com a arte, efeitos nas demais pessoas, e somos responsáveis por isto.

Com este último ponto pueril termino a postagem de hoje, e deixo um saco de perguntas a todos. Conto uma última passagem, também do aniversário:

“Lambreta: Tuta, você sabe onde fica Santa Catarina?

Super Tuta: Não...

Lambreta: Embaixo do Paraná...e você sabe onde fica o Paraná?

Super Tuta: Em cima da Santa Catarina...”

Simples e inquestionável!

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