FALA PALHAÇO! Almoço com cadáver



Toda terça, uma coluna onde Gerson Bernardes e Alexandre Simioni escrevem sobre diversos assuntos, sempre sob a ótica do palhaço.




Lambreta e Mereceu em ilustração de Carlos Nascimento



Almoço com cadáver
Ale Simioni



O título desse texto aparenta a abordagem sobre uma vida vegetariana, ou ainda sobre um thriller de terror, daqueles bem sangrentos. Mas não é sobre isso que quero escrever. Bom, na verdade acaba se aproximando mais dos filmes de terror, sim. Mas de uma outra maneira.

Acontece que semana passada, ao pegar a refeição num self service que faz parte de uma grande rede de hipermercados em Londrina, dei de cara com uma TV ligada em um desses programas policiais “pinga-sangue”. E pior, no momento que olhei havia a imagem de uma pessoa morta e estrebuchada no asfalto.

Desviei o olhar, mas eis que há outras Tvs no espaço e novamente dei de cara com o cadáver!

Durante todo o tempo em que eu pegava a comida, tentei não olhar para as telas e cheguei a pensar em pedir para alguém mudar de canal. Mas o que me fez refletir, foi perceber que as pessoas almoçando ou na fila não se incomodavam com o conteúdo exibido. Na verdade elas assistiam quase que hipnotizadas, e talvez esperando por cenas cada vez mais fortes, como se fosse qualquer filme do Tarantino.

Estamos tão insensíveis aos estímulos da mídia, que esses programas “pinga-sangue”, (em quase todas emissoras no mesmo horário e com apresentadores machões e gritões) são programados justamente para o horário do almoço. Mas aí eu me pego pensando: Você almoçaria ao lado de um cadáver? A resposta seria um estrondoso NÃO! No entanto, acredito que a maioria das famílias fazem suas refeições em frente à TV, habituando inclusive as crianças a se alimentar com essas imagens.

Não quero parecer nenhum tipo de evangelizador, mas pensando apenas como ser humano: Não há como eu me alimentar acompanhado de imagens de semelhante morto, estrebuchado, atropelado ou assassinado. Quando estava no restaurante fiquei pensando que se a televisão pudesse reproduzir o odor das imagens aquele local estaria insuportável. E será que as pessoas continuariam a comer ali?

Augusto Boal já apontava há algumas décadas sobre essa “falta de sensibilidade” criada pela mídia nas pessoas. E na época ele não se referia aos programas “pinga-sangue”, sua indignação era simplesmente pelas famílias jantarem assistindo ao Jornal Nacional. De lá pra cá as tolerâncias foram esticando, até chegarmos a situações esdrúxulas de cadáveres na TV durante o almoço.

Em 2001, propus em uma aula para turma de artes cênicas, que eles deveriam ao encenar uma matéria policial impressa num jornal diário, que estimulassem outros sentidos do espectador além da visão. A reportagem contava a história de uma garota que foi encontrada morta em um matagal, e os alunos resolveram encenar apenas essa parte da história, as pessoas procurando pelo corpo e ao encontrar, desenterraram, descobrindo a menina.

Eles utilizaram borrifadores com água, para causar a sensação da fina chuva que caía e da umidade do local. Mas o auge foi um frasco de vidro que foi aberto no mesmo momento em que encenavam a descoberta do corpo. Nesse frasco havia restos de uma galinha, há uma semana enterrada. Imagine que nesse momento a sala ficou impregnada com o cheiro putrefato. A cena possuía visual, mas também odor. Nunca mais saiu da minha memória e tenho quase certeza que se mantém na memória dos alunos que assistiram a cena.

Será que precisamos de uma TV com cheiro?

Ou só um pouco de bom senso?



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