FALA PALHAÇO! O problema do sofá...

Toda terça, uma coluna onde Gerson Bernardes e Alexandre Simioni escrevem sobre diversos assuntos, sempre sobre a ótica do palhaço.


Lambreta e Mereceu em ilustração de Carlos Nascimento (Nasci)

O problema do sofá...
Gerson Bernardes


Hoje o texto vai diretamente da Estância Turística de Avaré.
E hoje quero falar do conforto.
Não do conforto sofá. Não do conforto cama box do tamanho do rei ou da rainha.
Falo do conforto que estagna, que acomoda, que cerca, que prende. Do conforto que impede que se crie, que nos deixa parado no que está bom impedindo o “risco” de ficar ótimo. O bom não é ruim, longe disso. Por isso que é difícil.
A própria palavra conforto já se acomoda na boca. Falada devagar chega a dar sono. E não há conforto no mundo que não seja fácil de acostumar.
Márcio Libar no seu livro “A nobre arte do palhaço” diz muito sobre o assunto. Traz o exemplo de uma comunidade ou uma família que dependia de uma vaca para o sustento. Em um dado momento, a vaca foi empurrada de um desfiladeiro, ou foi transformada em churrasco. Não sei muito bem o final dessa passagem, escolha você o que acha mais cruel.
O que a mensagem quer passar é que a comunidade ou a família não quis se acomodar ao conforto trazido pela vaca. Frente ao conforto, à estagnação, assume-se a dificuldade e se passa a criar em cima dela.
Escutei muito isso em ensaios, oficinas e aulas. E tenho certeza que muito mais precisava escutar, e pelo resto da vida.
Junto a todos estes pensamentos jogados o que li sobre o improviso.
Meu amigo, parceiro e mestre Alê Simioni, quando nos propusemos escrever estas mal traçadas linhas, emprestou-me o livro “Palhaço-bomba”, de Hugo Possolo.
A mim, pensando no fardo do conforto e lendo sobre o improviso, acredito que a melhor resposta àquele é o dito improviso.
Possolo diz em seu livro que “o comediante quando improvisa consegue perceber o quanto a plateia compartilha de seu raciocínio e também o quanto ainda pode surpreendê-la com ele. Estabelece um diálogo que está além das palavras e gestos que emite. Consegue criar tensão e alívio para situações aparentemente insolúveis naquele instante. Faz uma metáfora do que cada um pode fazer em seu dia a dia, revelando mecanismos de como mudar nosso ângulo de visão para os problemas. Esta mudança de ótica, no caso, acontece pelo humor, o que possibilita que as soluções se dêem pelo prazer”.
Melhor que eu dizer, é ler o que está acima. Concluo, mais propondo e ordenando a mim mesmo do que sugerindo. Frente ao conforto, à estagnação, improvise. O resultado pode não ser bom, mas será ao menos outro.

Ps: que não pense um menos atento que estou falando somente da atividade artística...

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