FALA PALHAÇO! No voy a ser yo

Toda terça, uma coluna onde Gerson Bernardes e Alexandre Simioni escrevem sobre diversos assuntos, sempre sobre a ótica do palhaço.

Lambreta e Mereceu em ilustração de Carlos Nascimento (Nasci)


No voy a ser yo!
Gerson Bernardes


Faço do meu espaço de hoje uma homenagem. Essencialmente uma homenagem à vida, fisicamente uma homenagem aos mais velhos.

Estuda-se muito a relação do palhaço e o seu modo de olhar o mundo e a semelhança deste “ser” para com a criança, assim como a semelhança na diferença em como olhar o mundo.

Compliquei de propósito a frase porque o tema é complicado. O engraçado é ter que dizer que foi de propósito como me justificando. Enfim...

Muito se estuda e se diz que a criança é um mundo de possibilidades de “estudo”, por mais que eu não goste do termo, para um palhaço. E realmente o é, já que o palhaço pretende o que a criança por conta do pouco tempo de vida simplesmente é. A criança não possui ainda em seus atos todos os dogmas de convívio, muitas vezes sem sentido, que uma pessoa de mais idade, e quando digo isso já quero dizer um adolescente, tem, por mais que este ainda lute de maneira vã contra estes dogmas, que se não tem justificativas em sua maioria são impostos.

Dou exemplo: é esta ausência de dogma que faz com que uma criança se permita dizer a um palhaço, empunhado de boa vontade e um violão, que não é sua música que ela quer ouvir, mas sim o DVD do “Fernando e Sorocaba”. Qualquer pessoa com um pouco mais da vil educação que nos é cobrada desde cedo ouviria o patatí cantar, mesmo não querendo.

Desde o ano passado penso nessa mesma comparação, mas em relação aos velhos. Aproveito que o tema é esse e me dispo e me arrisco somente por fazê-lo, a não florear o termo. Velho é velho e cada vez que fico mais não vejo mal à palavra.

Depois de muitos anos de vida, 60, 70, 91, o que mais carregamos com a gente? O que mais se tem a perder, e quem pode nos dizer o que fazer?

A partir do momento que se atinge tal grau de liberdade, o que se torna impossível? Amar com alta idade, não ser educado e não deixar de dizer o que nos der na telha?

Ainda que se fale em rede nacional os maiores palavrões, não é, Dercy?

Ainda que se durma se a novela da TV é a mesmice de sempre, ou se a conversa não é boa. A cerimônia não existe mais, nem a falsa educação. Se a conversa ou o assunto não são bons, deixo-me em modo de hibernar no sofá, despertando-me quando for interessante fazê-lo.

Proponho então que se mantenha a semelhança entre o palhaço e a criança. Proponho que se some a esse entendimento que o palhaço também é um velho, ou uma velha.

A criança não teme perder porque não sabe calcular o que se tem. O velho não tem medo de perder porque é impossível perder quando nada se tem ou muito pouco, pois é isso que sobra quando os devidos valores são dados às coisas.

“Quer pouco, terás tudo. Quer nada, serás livre”. A criança é livre porque assim nasce, o velho é livre porque se fez, o palhaço tenta, e quando consegue faz livre o mundo.


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