FALA PALHAÇO! às 3as com Lambreta e Mereceu

Todas as terças, uma coluna onde Gerson Bernardes e Alexandre Simioni escrevem sobre diversos assuntos, sempre sobre a ótica do palhaço.

Lambreta e Mereceu em ilustração de Carlos Nascimento

Nóis semos leão, não tatu!

Gerson Bernardes

Confesso que no dia de hoje, pensei por muito tempo em escrever algo sobre os acontecimentos que entornam o assunto do momento, pelo menos até o momento ontem. O fazer piada e suas consequências, aprender a rir de si mesmo, o politicamente correto, foram assuntos que permeram meu imaginário no dia de hoje.

Mas também no dia de hoje fui lembrado pelos meus amigos Pepito Forte e Bonito e Ritalino que existe no mundo Adoniran Barbosa.

Não que fosse preciso lembrar de um gênio que, não necessariamente nos palcos, embora tenha atuado por eles, mas nas músicas, eternizou símbolos, trejeitos, gírias, paulistanices, e pessoas.

Minha homenagem a ele vai indiretamente...pensei em uma pessoa imortalizada por este gênio, o "Seu" Ernesto Paulelli, este que agora neste momento exato você já deva ter entendido de quem se trata.

Conheça a história deste filho de italianos imortalizado em música por Adoniran Barbosa. E conheça Adoniran Barbosa. E se conhece, relembre, não que seja possível se esquecer, mas relembre quantas vezes precisar. O trejeito, a matreirice, a tranquilidade, e a genialidade de alguém que de forma simples, porém verdadeira, é também um imortal

Em tempo: segue abaixo um link para o episódio em homenagem ao Adoniran no programa "Minha Vida", da Rede Globo. Além disso, segue um texto de reportagem de Janaína Quitério. A reportagem feita com o Seu "Arnesto" você encontra no site da Revista Brasileiros, que acabei de conhecer e já me interessei.

video

"O Arnesto nos convidô prum samba, ele mora no Brás"

A cara e a voz do homem que foi imortalizado, há mais de 50 anos, pela música de Adoniran Barbosa

Janaína Quitério

Para ler ao som de "Samba do Arnesto", de Adoniran Barbosa
O Arnesto nos convidô prum samba,
ele mora no Brás
Nós fumo e não encontremos ninguém
Nóis vortemo cuma baita de uma reiva
Da outra veiz nóis num vai mais
Nóis não semos tatu!

Eu sou o Arnesto do Brás. Nasci na aorta do Brás, na Rua Flora, numa travessa entre a Rua Caetano Pinto e a Rua Piratininga. Nasci em 1914. Dia 15 de dezembro.

Meu pai veio da Itália para cá com três aninhos, coitadinho. Três aninhos é considerado brasileiro. Ele nasceu em 1893. Minha mãe também viera em 1896 da Itália com a família dela. Quando eles se conheceram, houve aquela força magnética do olhar. Um olhou para o outro. O outro para o um. E casaram-se. Desse casamento eu nasci. E também meu irmão. Ele no começo de 1913. Eu nasci em 1914, no fim. Ele morreu com 90 anos, coitadinho. E eu sobrevivi. Quando ele morreu, eu tinha 88 anos. Agora tenho 93 anos e meio. E cá estou conversando com você. Mas você quer é saber do samba?

Ernesto ou Arnesto?
O ano era 1938. Violonista, Ernesto foi chamado pela Rádio Bandeirantes para acompanhar as canções napolitanas de Vicente Carbone. O programa começava às 11h e ia até 11h30. Na meia hora seguinte, o violão de Ernesto acompanhava um músico português com seus fados. E terminava a manhã de domingo tocando canções brejeiras e sambas-canções de uma moça muito bonita conhecida como Nhá Zefa.

- Eu tocava violão muito mal.

Todos os domingos, durante um ano, Ernesto se apresentava nos três programas. Meia hora. Meia hora. Meia hora.

- Ernesto, você não quer dar uma canja comigo na Record?

O convite de Nhá Zefa ao músico levava no ventre o samba que mudaria o nome, a índole, o bairro e a própria vida de Ernesto. Pois esse convite deu à luz o "Samba do Arnesto". Ou, pelo menos, iluminou o caminho de Ernesto para entrar nas cercanias de Adoniran Barbosa. Em todo caso, o convite tinha luz. Com 24 anos, Ernesto estava na primavera da idade para andar por cá e por lá. Terminado o programa com Nhá Zefa ao meio-dia e meia na Bandeirantes, eles atravessavam o Viaduto do Chá e entravam no estúdio da Record, no 13º andar de um prédio da Rua Conselheiro Crispiniano.

- Adoniran, esse rapaz aqui é o Ernesto, toca violão e veio me acompanhar no programa.
Adoniran estende a mão a Ernesto. E solta a voz esganiçada:

- Muito prazer! Muito prazer! Me dê a mão.

Três domingos se passaram depois daquele dia. Novo encontro no bar. A voz rouca faz o pedido ao violonista:

- Você tem um cartão para me dar?

Ernesto põe a mão no bolso e oferece seu cartão.

- Arnesto Paulelli!, lê Adoniran. Desconfiado, Ernesto retruca:

- Adoniran, eu sou E-rnesto. Não sou Arnesto.

- É AR-NES-TO. E teu nome dá samba. Eu vou te fazer um samba. Você aduvida?
Ernesto o olhou meio assim, de lado, e depois concordou:

- Já não aduvido mais.

O dono da voz rouca que cantou os sambas mais paulistanos de São Paulo sela a promessa com um abraço no novo amigo.

- Pode me cobrar o samba, Arnesto. Mas, cartão, este eu não tenho para te dar.

Naquela época Adoniran ainda não fazia sucesso. Pondo a mão no buço, Ernesto imita imponente o sambista, fazendo a boca apertada e mostrando o bigodinho.

- Não. Não. Era um pilantrão, coitado. Fumava feito maluco e bebia cachaça alucinadamente. Cachaça mesmo, pura. Mas era uma bela figura, o Adoniran.

Em 1936, Adoniran Barbosa gravava o seu primeiro disco em 78 rotações, Agora podes chorar (Colúmbia, número 8171). Disputava um lugar profissional e de destaque nas rádios da época, sobretudo como ator de rádio. Mas só fazia pontinhas ou papéis secundários. Nos bares do centro paulistano, onde estavam as principais rádios, Adoniran estava atento a tudo que podia dar samba.

A promessa ao amigo Ernesto ficou guardada. Foi cumprida 17 anos depois.

Fã de futebol
Ernesto Paulelli é o Arnesto do samba. Está sentado na mesa de centro de sua sala, o lugar mais próximo que conseguiu colocar-se para não perder um só lance da semifinal de futebol entre Itália e Espanha (campeonato europeu 2008), que acaba de ir para a prorrogação. Seu Ernesto tinha desmarcado a entrevista inicialmente agendada às 16h. Mas, como não dá furo em compromisso, pediu à filha Valéria que ligasse e marcasse às 18h. O motivo, não justificou. Decerto queria assistir a uma de suas diversões preferidas sem amolações. Nos pênaltis, a Itália perde de 4 a 2. Vagarosamente, seu Ernesto se levanta.

- Vamos começar?

Seu andar é lento e arrastado do lado esquerdo, seqüela de um derrame que o acometera três anos antes. Ele senta-se na grande poltrona amarronzada, que faz combinação com o relógio cuco de três cordas, colocado na parede perpendicular à poltrona para avisar os moradores e as visitas, a cada quarto de hora, que o tempo corre.

O patrono do samba de Adoniran é um senhorio de traços maturados e rosto longilíneo harmonizado com lábios e nariz aguçados. Tem estatura mediana e cabelo já descolorido, que ainda resiste na cabeça apenas dos lados e atrás.

Vestido assim, de blusa de lã cinza sobre uma camisa azul xadrez para se proteger do recém-chegado inverno sem garoa, seu Ernesto mais parecia uma folha de outono. Só a seguir eu descobriria que a folha envelhecida ainda não se desprendera da árvore construída. A árvore do samba e a de seu personagem, Arnesto.

Vendedor de chuchu
Quando pequenino eu engraxava sapatos. Até assobiava enquanto esfregava o couro. E ganhava um dinheirinho para ir à matinê. Meu pai tinha o ofício de sapateiro. Não era uma pessoa abastada. Em 1920, eu ainda morava no Brás, na Rua Melo Barreto. Em 1922, mudamos para a Mooca. Havia muito chuchu no nosso quintal. Eu saía com duas cestas de chuchu andando pela vizinhança e perguntava à freguesa:

- Como chama a sua vizinha, dona Matilde?
- Essa daqui é a Margarida.

Aí eu ia até lá:

- Dona Margarida, a senhora quer chuchu?

- E como é que você sabe que eu sou a Margarida?

A curiosidade feminina é uma coisa fantástica. Aí eu explicava:

- É que a vizinha aqui do lado, a dona Matilde, fala tão bem da senhora. Que a senhora é uma vizinha maravilhosa...

- E quanto é meia dúzia?

Enquanto embrulhava, eu já perguntava o nome da outra.

- Dona Dália, bom-dia, a senhora precisa de chuchu?

A mesma pergunta vinha em seguida. Assim eu vendia as minhas duas cestas. E os bolsos ficavam cheios de níqueis.

O personagem Arnesto na não-ficção figurou em vários papéis. Além de chuchu, vendeu secos e molhados, miudezas, trabalhou com jogo do bicho e tocou violão em cantinas. Em 1973, Ernesto aposentou-se como vendedor de produtos químicos. Mas não sossegou. Aos 60 anos, formou-se em direito pelas Faculdades Integradas de Guarulhos (FIG). Antes, fizera o supletivo para adultos - o curso de Madureza - para concluir o ginásio e o colegial. Trabalhou como advogado na área de Direito Civil por 30 anos e só parou em 2005 devido ao AVC, que hoje o obriga a praticar fisioterapia todos os dias, tempo que divide com o estudo diário de música, regras gramaticais e matemática.

Encostado na poltrona, seu Ernesto mergulha em lembranças. Em 94 anos, a memória o acompanha lúcida e rápida. Não que não dê mancadas. É quando seu Ernesto coloca a mão direita sobre a testa, arqueia o sobrolho, bagunça o cabelo, e o olhar passeia por toda a sala sem focalizar nada. Não vencendo o lapso, ele recorre à sua memória externa: sua filha do meio, Valéria Paulelli, 60 anos, que mora com o pai e o marido.

- Valéria, como era o nome da rua onde ficava a loja do seu Afonso Barbato?

- Valéria, como é o nome do hospital da Rua do Oratório?

- Valéria!

- Mas, o que eu estava contando mesmo?

O samba na rádio
Quando jovem, Ernesto também trabalhou como gerente de uma loja de miudezas e inventou de vender lá as ceras Recorde (famosas, naquele tempo). Esperto, ele próprio negociou com Salvador Basile, o dono da fábrica, e conseguiu a mercadoria consignada. Montou uma pilha de ceras do chão ao teto na entrada do estabelecimento e anunciou um preço menor que o da concorrência. O sucesso foi tão grande que Basile lhe preparou uma caixa com todos os produtos que vendia: cera, lustra-móvel, inseticida. E deu de presente ao vendedor:

- Ernesto, te dou 500 mil réis por mês e vou te dar interesses na firma. O senhor vai ter uma porcentagem sobre o meu lucro.

Em 1941, casou-se com Alice. Seu chefe, Salvador Basile, foi o padrinho de casamento e de batismo de sua primeira filha Vanda, nascida em 1942. Na seqüência, vieram o José Carlos, Vicente, Valéria e, por último, o Zé. Eram cinco filhos.

Sobre o samba de Adoniran, Ernesto nem se lembrava mais do prometido quando o escutou pela primeira vez no rádio.

- Foi em 1955. A minha patroa, Alice, estava entretida na máquina de costura, botando botões na camisa, quando ouvimos na Rádio Bandeirantes:

O Arnesto nos convidou... PUM!
Prum samba ele mora no Brás... PUM!
Nóis fumo e não encontremos ninguém.

- Alice! Alice! Essa peteca é minha!

- Ernesto, que peteca?

- Esse samba aí, Alice, o Adoniran me prometeu. Eu não falei que ele tinha me prometido? Faz quase 20 anos!

E Alice chorou abraçada ao marido. Seu Ernesto confessa:

- Eu também. Pra dizer a verdade, não deu pra segurar. Diz que homem não chora. É mentira. Chora de emoção, de alegria, de tristeza. Eu chorei de alegria.

Só dois anos mais tarde é que Ernesto se encontrou com o amigo Adoniran. Estava trabalhando no escritório da Cera Recorde quando Lívio Delmare, músico de canções italianas, foi convidar Ernesto para participar de um programa na TV Record, todas as quartas e quintas à tarde. Ele foi. Enquanto afinava seu violão, ouviu uma voz grave:

- Arnesto, que achou do samba? Você gostou?

- Ô Adoniran, se eu gostei? Você me abriu no meio, rapaz. Eu adorei teu samba!

- Então me dá um abraço, que agora você é meu compadre.

O sambista considerava suas composições como filhas. Ainda hoje, depois de contar inúmeras vezes o episódio, seu Ernesto se comove:

- Muito obrigado, compadre.

Adoniran Barbosa deu a Ernesto não apenas uma afilhada. Deu-lhe outro nome e a fama de furão. Mais de 50 anos depois de a música ser composta e entrar em todas as casas pela voz dos Demônios da Garoa, muitas pessoas ainda acreditam que a história é verídica e que Arnesto, realmente, deu um "bolo" nos convidados:

- Mas, então, o senhor não deu mancada, não?

Ernesto costumava se encontrar com Adoniran e certa vez, reclamou:

- Ô Adoniran, você me meteu numa treta. Por que você foi colocar que eu te dei um bolo, rapaz?

- Arnesto, se não tivesse mancada não tinha samba. Segura essa pra mim!

Como "recompensa" pela saia-justa Adoniran o presenteou com a partitura 001 dos irmãos Vitale: a primeira de "Samba do Arnesto", impressa pela editora dos irmãos. Adoniran deu a partitura autografada a Ernesto, e Alocin, parceiro do músico, assinou com um "de acordo" ao lado da homenagem. Hoje, está pendurada em seu quarto. E ainda tem dedicatória:

"Ao acadêmico Ernesto Paulella, a quem dediquei esta composição quando do seu lançamento, em 1955. Homenagem do autor, Adoniran Barbosa".

O cuco dá a badalada das nove. Seu Ernesto levanta-se, sacode as pernas para fazer o sangue circular e lentamente vai até a pia do corredor lavar as mãos. Antes, parara a entrevista para ligar a televisão. Seu neto Paulo Paulelli iria se apresentar na TV Cultura tocando seu violoncelo no grupo musical liderado pela cantora Rosa Passos. A mesa do jantar está italianamente farta. Sopa de legumes com fusili e pão. Lagarto e salada de rúcula. Como sobremesa, manjar de coco e sfogliatella. Para seu Ernesto, em especial, uma banana e dois pedaços de batata-doce, que ele misticamente põe à mesa desde os cinco anos de idade. Na frente do sobrado na Rua Tagi - ruela da Mooca perto da Rua dos Trilhos -, um grupo de jovens gargalha ao redor da fogueira. A noite finda. Seu Ernesto, agora com a vida contada, despida e interpretada, pega a boina marrom, guardada na estante da sala. Assim, sela a conversa como personagem. Arnesto, do "Samba do Arnesto". Que mora na Mooca. E sempre deixa um recado na porta. Nóis semos leão, não tatu!


http://www.youtube.com/watch?v=uj6l2JYOPOs

http://www.revistabrasileiros.com.br/

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