Presente bom pra palhaço

desenho: Nasci

No post anterior, em que fiz um Diário de Bordo da apresentação em Centenário do Sul, comentei que durante a segunda apresentação, “comi” uns 8 minutos do espetáculo. Pois é, essas coisas acontecem, mas situações embaraçosas são consideradas presente para os palhaços.

Quando estou em cena, lembro sempre de uma frase do palhaço Leonid Georgievitch Engibarov :

O palhaço faz tudo, sempre, seriamente. Por certo, isto não significa que não queira ser cômico. Ao contrário, sua meta é fazer rir. Mas o verdadeiro cômico consegue isso sem tentar fazer rir a qualquer preço.” (você pode ler um post sobre Leonid clicando aqui)

desenho: Nasci
Pois bem, no espetáculo “Qual a graça de Laurinda?” temos muito espaço para improvisação, mas também temos um roteiro a seguir, afinal, apesar do espetáculo ser formado a partir de números conhecidos (boxe, corrida em camera lenta, etc) é importante seguir uma ordem – clique aqui para ver um clip do espetáculo.

Pensado para espaços públicos, o início do espetáculo é um solo do Lambreta, que além de apresentar a introdução do esptáculo, também serve para “chamar” o público. Tem aquele tempo para as pessoas perceberem que está acontecendo algo diferente naquele espaço e ter a curiosidade de parar.

Após a entrada do Lambreta, há também o solo meu (Mereceu), onde me apresento ao público, em geral me relaciono com o espaço, sem ficar preso a área cênica. Em seguida, inspirado por um número do Tortell Poltrona, encontro uma fita zebrada, que sai da minha casaca e começo a literalmente  a enrolar o público, garantindo que todos ficarão para o nos assistir. Termino a “enrolação” no espaço cênico  de frente para o jornal, onde vejo a foto de Laurinda Graça!  Pego o Jornal, me apaixono e começa o conflito, pois o Lambreta volta a cena procurando o periódico. Daí pra frente é só confusão.

desenho: Nasci
O palhaço é como uma criança, ele funciona através de  estímulos. No espetáculo o Mereceu só pega o jornal, porque olha pra ele, vê a foto e se apaixona. Aí está o estímulo. Pois é, acontece que na apresentação na parte da tarde, em Centenário, eu entrei pelo fundo do teatro, me relacionei com o espaço e público, fui para o palco e antes de ter tempo de perceber a fita na minha casaca, olhei para o jornal que estava do outro lado do palco. Páááá!!!! Lá estava o estímulo e sem pensar, fui para o objeto, me apaixonei pela Laurinda, sentei no banquinho para ler e BOMBA!!!! Percebi que havia pulado um bom pedaço do espetáculo.

Em milésimos de segundo tento voltar atrás, mas percebo que o Lambreta já está em cena. Fico muito desconcertado e me sinto o perdedor dos perdedores. Olho para a Fernanda que está operando o som e literalmente rola de rir. Tento estabelecer uma comunicação com ela apenas com o olhar, como se dissesse: “como isso aconteceu???” ao mesmo tempo sigo o roteiro, mesmo porque, apesar de ter achado estranho, o Lambreta não se ligou muito no que aconteceu.

desenho: Nasci
Resolvi aproveitar esse sentimento de perda, de desconforto, de estar sem-graça; esse passou a ser meu estímulo até o final do espetáculo. E aí é que me vem a frase do Leonid, porque eu não tinha intenção nenhuma em ser engraçado, a situação era real. Mas estava em cena, então vamos aproveitar a graça.

É claro que a platéia não percebeu isso que aconteceu, mas daquele momento até o final do espetáculo, o Mereceu ganhou uma energia diferente, pelo menos pra mim. São nesses momentos que caem as fichas de frases, oficinas, textos, filmes e mestres que a gente estuda para levar ao palco.

desenho: Nasci










Alexandre Simioni (Mereceu) 

Um comentário:

  1. kkkkkkkkk Nossa o momento do "e agora?" foi muito divertido! kkkkkk eu tive um ataque de riso daqueles! Valeu!

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