Auto-Retrato de um Palhaço


Leonid Georgievitch Engibarov foi um dos primeiros palhaços-mimicos modernos. Era malabarista, equilibrista e acrobata de grande destreza. Atuou em filmes, pantomimas e espetáculos de revista. Os números eram criados por ele mesmo. Publicou em 1969 “A arte do palhaço”, na extinta URSS.

Abaixo apresento trechos de uma entrevista em que Engibarov fala sobre a formação do palhaço, a importância dos ensaios e  como um número nasce de uma improvisação. A tradução é de Francisco José P. N. Vieira.


O palhaço faz tudo, sempre, seriamente. Por certo, isto não significa que não queira ser cômico. Ao contrário, sua meta é fazer rir. Mas o verdadeiro cômico consegue isso sem tentar fazer rir a qualquer preço.”

Na escola de circo de Moscou tive como professor Iuri P. Belov, jovem diretor apaixonado pela arte dos palhaços. Foi com ele que criei a figura de meu personagem . A criação de um personagem é o mais delicado de todos os problemas da arte dos palhaços. O artista de cinema, de teatro e mesmo de variedades encontra-se em uma situação muito mais cômoda: os dados de seu personagem estão inscritos no texto de um autor, enquanto o palhaço é o próprio autor de seu personagem.

Todo tipo de perguntas nos são feitas. Por exemplo, seria preciso colocar no meu personagem uma maquiagem de palhaço? Passamos em revista as maquiagens e as máscaras dos maiores cômicos que conhecemos. Seria o caso de inspirar-se em um outro? Sentíamo-nos particularmente atraídos pelo rosto branco de Grock, o grande palhaço suíço. Esta maquiagem, que lembra a máscara clássica do Pierrô, me seduzia muito.

Mas depois de refletir bastante desistimos de criar uma variante desse tipo de máscara: ele realça com uma insistência toda especial os olhos tristes daquele que representa o palhaço. Antes de escolher esta maquiagem, porém, era preciso estabelecer o caráter do meu personagem. Quem era ele?

(...)Demos a ele a curiosidade e a sede de saber de um menino, sede que o leva a atos e comportamentos irrefletidos.

Faltava vestir o nosso personagem. Sua roupa, antes de tudo, não deveria atrapalhar seus malabarismos e acrobacias e, portanto, ser funcional. Mas era essencial que exprimisse o caráter do personagem. Lionia usa os sapatos muito grandes de seu pai, que pegamos emprestados do querido Chaplin. A calça, com seus suspensórios, foi idéia de minha mãe que fez o seguinte comentário: “Assim ele parecerá realmente um traquinas.” (...)

A imagem continuou a tomar forma à medida que o trabalho se desenvolvia. Meu menino ainda precisava amadurecer, não na aparência física, mas no aspecto moral. Entretanto, para que meu personagem amadurecesse, seria preciso que eu, enquanto artista, me desenvolvesse espiritualmente .

(...)Muitas vezes me perguntaram por que eu não falava em cena. Não é por não saber falar que me calo. Mas o circo é, antes de tudo um espetáculo visual. Parece-me que o público vem ao circo mais para “ver” a representação do que para ouvi-la. Além disso, calo-me porque gosto muito da mímica, gosto da sua linguagem sem palavras, e assim mesmo tão expressiva.

(...)Acontece, às vezes, na minha prática, de ter a impressão de ter “dito tudo”, e de não ter idéias novas . A única ajuda que eu encontro nesta hora são as emoções novas, sejam elas diretamente provocadas pela vida ou pela renovação da arte. Nestes momentos eu passeio muito, viajo, devoro filmes e espetáculos. Não necessariamente comédias .
(...)Sempre tive grande satisfação como artista quando consigo dominar um gênero novo ou executar uma acrobacia original. Mas nunca, nunca mesmo, executo no picadeiro um número, por mais complicado que seja, que não se encaixa no contexto. Procuro, custe o que custar, inserir cada número dentro de uma história que corresponda a meu personagem.

Certo dia me falaram de pular corda, não de forma comum, mas deitado. Decidi realizar este número que muito me atraiu. Mas por muito tempo não pude coloca-lo em um ato, pois não encontrava um pretexto plausível. Meu raciocínio era o seguinte: a corda e o lado criança de meu personagem combinam muito bem. Mas como pular corda deitado?

Afinal a idéia surgiu. O diretor do circo, descontente de ver o traquinas do Lionia pular corda durante a representação, lhe confisca o objeto. Mas Lionia tem uma outra corda de reserva. O diretor a confisca também, assim como a terceira. E a esta encarnação ambulante da ordem fica realmente furioso e força Lionia a mostrar os bolsos. O palhaço se faz de idiota e não compreende o que querem dele. Exploro ao máximo o jogo dos bolsos revirados, o direito, depois o esquerdo, segundo o princípio de Chaplin de se explorar de uma situação todo o riso possível. Os espectadores observam a cena com atenção e não ocorre a ninguém que eu possa ter uma outra corda... no meu chapéu. É uma alegre surpresa para todos.

Mas que catástrofe: a corda é muito curta. O que fazer? Desolado, suspiro e de repente encontro a solução: me estendo sobre o tapete e pulo corda deitado. Quando o diretor corre mais uma vez em minha direção, eu logo finjo que a corda é uma gravata. E a independência da minha atitude proclama: você não tem o direito de me tocar, é simplesmente minha gravata. Então me afasto, de cabeça erguida.

Outra maneira de criar uma cena é a improvisação.(...) Certo dia, quando representava um dos múltiplos intermédios previstos no programa, o diretor me soprou ao ouvido: “Ganhe tempo!”, significava que havia um problema nos bastidores e era preciso entreter o público. Não tinha a minha disposição nem minha bengala, nem meu chapéu, que seriam tão úteis neste caso. Mas notei que o contra-regra havia colocado um microfone sobre um banquinho, destinado ao número seguinte.

Ao me aproximar do microfone não tinha nenhuma idéia do que faria. Mas, no momento em que o peguei, logo tive uma idéia e me pus a discursar com paixão... sem dizer uma palavra sequer. De repente percebi que o microfone não estava funcionando. Bati, soprei. E enquanto isso, angustiado, eu me perguntava: “E depois? E depois?” “Ande sobre o fio” me soprou uma súbita inspiração. Lembrando-me do truque dos ilusionistas para desviar a atenção do público por um movimento falso, levantei o microfone como que para aproximá-lo da luz, levando os espectadores a olharem para cima enquanto manipulava discretamente o fio. Daí em diante a ação se desenrolou por si mesma. Com grande surpresa, descobrira a causa do defeito. Retirei o pé e bati de novo no microfone que voltou a funcionar. Adotei uma postura de orador e então o medo me tomou. Abria a boca mas não me saia nenhuma palavra. Assustado, olhei para o diretor que fez um gesto para me animar. Fiz-lhe que tinha medo, movido por um impulso imprevisível, coloquei o microfone sobre o meu coração, como se fosse um estetoscópio. A continuação foi fácil: suavemente, comecei a bater com o dedo no microfone e ressoou por todo o circo o tique-taque precipitado do meu coração. Tive a idéia de testar o coração do diretor. Batia num ritmo totalmente diferente, com longos intervalos, “bam, bam, bam”. A sala caiu na risada. E nesta hora, nos avisaram que nos bastidores tudo estava em ordem.

Em seguida, trabalhei e desenvolvi o que nascera do acaso. Tomei cuidado para demonstrar minha inquietação diante do ritmo irregular do coração do diretor que batia cada vez mais lentamente. Fico apavorado e, por fim, ele pára. Angustiadíssimo começo a procurar o coração, passando o microfone em diferentes partes do seu corpo. Em vão... Sacudo sua cabeça, examino seus olhos e choro desesperado. O diretor pede então, sorrindo, que eu procure seu coração à esquerda. Quando o microfone o encontra e começo a escutar as batidas normais, manifesto uma alegria infantil diante da descoberta.

2 comentários:

  1. Quem dera eu um dia ter a alma de um palhaço....

    Adorei...... Sucesso.......

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  2. Quem não puder ter a alma de um palhaço,
    que empreste a de uma criança
    e verá grande semelhança.

    LUIS MUNIZ (Palhaço Chiquito)

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